O ÉPICO DE DURÃO E LENDÁRIA PARAGUAÇU

A METÁFORA DE UM SONHO

 

Maria Helena Franca Neves – UFBA

 

 

A tese de que o poema épico do descobrimento da Bahia de Santa Rita Durão da arcádia luso-mineira, (1781), fundamentou a produção iconográfica do pintor Manoel Lopes Rodrigues, representando Catarina Paraguaçu e a igreja da Graça, toma como âncoras o canto X que versa sobre a visão beatífica de Paraguaçu. As metáforas que Rita Durão utilizou na composição dos versos do canto X, a maneira pela qual as distribui para configurar a imagem de Maria, são em grande parte, de proveniência barroca. Os diferentes registros metafóricos barrocos, que Durão faz ressoar segundo um comando todo próprio elevou o texto ao grau de obra prima. Jean Starobinski diz que Montaigne ``impõe seu andar``, às palavras que a pena retoma de outras ``fontes`` e assim, ``consegue dirigir a seu modo o concerto das vozes estranhas, fazê-las ressoar segundo ele mesmo, ao contrário da prática geral dos autores eruditos. (Starobinski, 1993:117). Durão encontra na palavra a plasticidade barroca, que dá presença à imagem surgida de um estado entre a vigília e o sonho, que Catarina descreve a visão:

 

Vi luzeiros de chama rutilante

Sobre a esfera tecer claro diadema

Da matéria mais pura que o diamante,

Que obra parece de invenção suprema;

Luzia cada estrela tão brilhante.

Que parecia um sol, precioso emblema

De admirável, belíssima pessoa,

Que à roda da cabeça cinge a coroa.

 

De ouro fino os cabelos pareciam,

Que uma aura branda aos ares espalhava,

E uns dos outros talvez se dividiam,

E outra vez um com outro se enredava;

Flechas voando, mais não feririam,

Do que um só deles n`alma penetrava;

Cabelos tão gentis, que o esposo amado

Se queixa que de um deles foi chagado.

 

A fronte bela, cândida, espaçosa,

Cheia de celestial serenidade,

Vislumbres dava pela luz formosa

Da imortal soberana claridade.

Vê-se ali mansidão reinar piedosa,

E envolta na modéstia a suavidade,

Com graça, a quem a olhava tão serena,

Que, excitando prazer, desterra a pena. (C. X, 2, 3, 4)

 

O épico emite reflexos missionários catequéticos, é que Durão, usou o carisma mariano – recorrência da schola jesuítica, da qual foi aluno – para abordagem de cristianização do aborígene, generalizado em Paraguaçu. A formação escolástica se revela nítida na fala do agostiniano vivificada na filosofia que canta Deus e o céu, a alma e a natureza, a glória, o amor, a honra e a bravura. O espírito criador de Deus, segundo a tradição cristã conduz a elaboração do verso 9:

 

Nas brancas mãos, que angélicas se estendem,

Um desmaiado azul nas veias tinto,

Faz parecer aos olhos, quando atendem,

Alabastros com fundos de jacinto;

Ambas com doce abraço ao seio prendem

Formosua maior, que aqui não pinto;

Porque para pincel me não bastara

Quando Deus já criou, quanto creara. (C. X, 9)

 

A ligação da lenda do sonho de Paraguaçu com a imagem de NS da Graça abrigada na igreja construída em sua intenção, propicia teorizações sobre as relações entre a literatura, o monumento arquitetônico, a iconografia episódica e a estatuária, objetivando uma leitura hermenêutica em torno da interdisciplinaridade das poéticas lusitanas carregadas de influências medievais e o neobarroquismo da Bahia do século 19, com Manoel Lopes Rodrigues, autor da iconografia do sonho de Paraguaçu, cuja obra encontra-se pintada no teto da igreja, e em tela produzida em 1881. Na última década do século 19, o original de Manoel Lopes Rodrigues, a obra de Manoel Lopes Rodrigues é copiado(com algumas modificações), por Julius Simmond, a tela passa a fazer parte do acervo histórico da Câmara Municipal de Salvador. Catarina Paraguaçu que inscreve o poema representa a idealização dos indígenas no Brasil, e tornou-se um dos poucos exemplares da iconografia baiana de espírito nacional, sob o código pintura histórica. A obra de Lopes Rodrigues é uma produção desse registro, e pode ser tomada como pintura histórica, estilo-temático corrente desde meados do século 19, inscrito no programa da política cultural do Segundo Império, sob o patrocínio e incentivo de D. Pedro II, estimulado a princípio, por alguma nobreza constituinte defensora das artes, como o Marquês de Paraná, que é citado como personagem benemérito da imprensa e das artes, em obra de Machado de Assis. A iconografia histórica é naturalmente profana e suplanta a iconografia religiosa do século 18, marcada pelo traço popular do ex-voto.

O berço da Bahia de Todos os Santos remete a um lugar real, de onde desvelam-se os ancestrais heróis míticos sujeitos aos desígnios da política econômica e religiosa do mundo ibérico, e que possibilitam a reinscrição da hospitalidade generosa do gentio, ao ponto de oferecer suas filhas ao estrangeiro de passagem, de refazer traços interpretativos e representacionais da história do descobrimento com seu programa missionário. Esses heróis cristalizados na estética do épico de Durão, surgem no final do século 18, em uma época que já não crê muito no pecado original, e em que a imagem do litoral do Brasil ainda não deixou de ser um anseio de renovação do velho mundo, e o pau brasil foco da cobiça e da ambição invasora.

A Vila Velha ou Vila do Pereira, nome residual do donatário Duarte Pereira, era um núcleo de náufragos e degredados vivendo com índias e filhos, nas proximidades de uma fonte ( ``a fonte de Catarina Paraguaçu``, como era conhecida no bairro da Graça ex- Vila Velha), que tornou-se propriedade da enseada do donatário Francisco Pereira Coutinho, desde que em Évora, (5 de abril de 1534), D. João III o nomeou primeiro donatário do Brasil. No ano seguinte, o donatário deixou Lisboa ``numa frota de sete navios`` e ao desembarcar na Bahia de Todos os Santos concedeu a Diogo Álvares (o Caramuru) uma sesmaria na Vila Velha, na qual habita com Paraguaçu, outras índias, filhas e filhos de suas mulheres Tupinambás.

Os acontecimentos que fizeram de Diogo Álvares mito da história da povoação da Bahia de Todos os Santos estão ligados ao ciclo das viagens marítimas de Portugal e encaixam-se no trágico-dramático tema marítimo do naufrágio que Durão descreve traço a traço, compondo o retrato da luta do náufrago:

 

Lança-se ao fundo o ignivomo instrumento,

Todo o peso se alija; o passageiro,

Para nadar no túmido elemento,

A tábua abraça que encontrou primeiro;

Quem se arroja no mar temendo o vento,

Qual se fia a um batel, quem a um madeiro,

Até que sobre a penha, que a embaraça,

A quilha bate e a nau se despedaça. (C. I, 12)

 

É corrente na Europa na idade das viagens transatlânticas o ex-voto pintado. A Nossa Senhora da Graça é uma imagem de proteção dos marítimos. Durão encadeia a devoção popular, colocando o náufrago sob a proteção de NS da Conceição, a virgem mais popular de Portugal:

 

Mas entre objetos vários a que atende

Nota Gupeva extático a pintura

Que num precioso quadro, que ali pende,

Representava a Mãe da formosura:

Se seja cousa viva não entende,

Mas suspeitava bem pela figura

Digna a pessoa, de que a imagem era,

De ser mãe de Tupã, se ele a tivera, (C. II, 27 )

 

O próprio Santa Rita Durão tem uma relação íntima com pagamento de promessa. Em 9 de fevereiro de 1759, ele escreve um sermão de ação de graças por el-rei D. José I haver escapado com vida de um atentado ocorrido no ano anterior. No sermão Durão incrimina os jesuítas, segundo biógrafos, em fevereiro de 1760, no aniversário do sermão contra os jesuítas, adoece gravemente (teria sido atacado pela varíola?). Obriga-se então, por voto a escrever uma Retratação. A antropofagia encontra em Durão um minucioso relator. Escapar do canibalismo, era para os viajantes outro motivo de graça merecedora de ex-voto.

 A investigação do Caramuru, poema épico aspira a nele reconhecer encadeamentos regulares, modelos de cultura. Basta fixar nosso olhar sobre a evidência dos correlatos, para compreender que são questões que não podem ser consideradas isoladamente, e que suscitam um olhar demorado sobre a própria iconografia que, retrata a matriarca etnia luso-brasileira, a mitologia nos mares da América.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

DURÃO, Santa Rita. Caramuru. Poema Épico do Descobrimento da Bahia. Rio de Janeiro/Paris, 1913

LEITE, Serafim, S. I. História da Companhia de Jesus. Lisboa/Rio de Janeiro: Livraria Portugália, Civilização Brasileira, 1938, t. 1

FOUCAULT, Michel. O que é um autor? Portugal: Passagens, 1992

____________. As Palavras e As Coisas. São Paulo: Martins Fontes, 1995

____________. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1998

 

RUITERS, Dierick. Originais Inéditos. A Tocha da Navegação. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: Deptº de Imprensa Nacional, 1966 v. 269, out. dz. 1965

SANTIAGO, Silviano. Apesar de Dependente Universal. In.: Vale Quanto Pesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982

STAROBINSKI, Jean. Montaigne em Movimento. São Paulo: Cia. Das Letras, 1993.